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segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Brasil financia porto cubano

Enquanto escoamento da produção brasileira é prejudicado pelas péssimas condições dos portos, no País, governo investe mais de US$ 227 milhões para construção de porto em Mariel, Cuba
Dilma em visita a Cuba. Imagem: Dácio Malta
Uma realidade dura de engolir é como as lideranças empresariais, sobretudo do segmento agronegócio brasileiro, avaliam a construção de um sofisticado porto marítimo em Cuba, com dinheiro do contribuinte do Brasil. A carência portuária e de vias modernas de transporte para circulação da riqueza nacional é sentida não é de agora. Instituições respeitadas como a Confederação Nacional da Indústria (CNI), Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), Sociedade Rural Brasileira (SRB), em nível nacional, vêm reclamando da necessidade inadiável do estabelecimento da logística brasileira. Os sistemas integrados das ferrovias, hidrovias e rodovias, aliados aos portos estratégicos como do Rio de Janeiro, Santos (SP), Paranaguá (PR) e cidades do Nordeste são defendidos pelas lideranças políticas e econômicas da agricultura, pecuária, comércio, indústria e exportadores.

Mas a surpresa, para não dizer um tapa na cara de toda a sociedade brasileira veio em forma de denúncia na edição desta semana da revista Veja. O governo brasileiro liberou recursos para o regime dos irmãos Castro construir um terminal marítimo em Mariel, em Cuba. A participação do Brasil nesta obra é de US$ 227,4 milhões. No Brasil foram investidos tão somente US$ 15,5 milhões em 2013. Segundo a publicação, US$ 18,7 bilhões é o quanto precisa ser investido neste País. A revista lembra que “o principal porto brasileiro, o de Santos, está assoreado e isso impede que os cargueiros de última geração, que exigem profundidades superiores a 14 metros, atraquem no terminal”.

Segundo informações, o Brasil vai perder este ano 22% da riqueza gerada pela maior safra de soja da história, de 55 milhões de toneladas. A causa disso são os gargalos da infraestrutura portuária brasileira e da perda de carga em acidentes de caminhões nas péssimas estradas. A revista observa em sua reportagem de três páginas que apenas 7% dos US$ 218 milhões previstos para ser investidos nos terminais brasileiros em 2013, ou US$ 15,5 milhões, foram aplicados. “O maior investimento brasileiro em portos nos últimos anos foi feito onde? Em Cuba”, acrescenta a publicação, observando que a presidenta Dilma Rousseff irá àquela ilha inaugurar o porto de Mariel.

Obra de Lula
O porto cubano terá capacidade 30% superior a do porto de Suape, o principal do Nordeste. Segundo a revista de São Paulo, “o descalabro é obra de Lula”. Foi em seu governo, em 2008, que o BNDES decidiu financiar 71% do orçamento da construção do porto. A indignação das lideranças empresariais patrícias é que “Cuba não pode esperar, o Brasil sim”. O negócio portuário com Cuba transcorreu, segundo a publicação, “sob segredo de Estado”. O BNDES financia obras de infraestrutura em 15 países, mas apenas três contratos (dois com Cuba e um com Angola) são considerados secretos. O que circula nos meios financeiros e diplomáticos nacionais e internacionais é que o regime cubano não cumpre seus compromissos comerciais. Sempre dá o calote.

Indignação generalizada
Em Rio Verde, região sudoeste de Goiás, o presidente da Cooperativa Mista dos Produtores Rurais de Goiás (Comigo), Antônio Chavaglia, mostrou-se indignado. Como defensor a quase duas décadas do transporte integrado e de uma logística em consonância com as necessidades nacionais, ele resumiu numa frase: “Tudo continua como antes”. A Comigo, que congrega 6.300 associados, e é uma das maiores cooperativas do interior brasileiro, comercializa a produção de seus sócios ou a transforma em valor agregado, mas não exporta.

Essa prática cabe aos compradores nacionais e internacionais. As multinacionais recolhem a soja ou o milho em suas unidades e as comercializam nos grandes centros ou exportam, utilizando, assim, os portos marítimos de Santos ou Paranaguá.

Toda a trama da construção pelo BNDES de um porto em Cuba encontra total indignação de Antônio Chavaglia. “Pelo amor de Deus, a gente fica por aqui implorando pelos investimentos nos sistemas portuários nacionais, não consegue nada, e o governo acha por bem investir em países que nada tem a ver com o Brasil”, manifestou revoltado o dirigente da Comigo, numa referência à obra em Cuba.

Analisando as necessidades logísticas nacionais, Chavaglia observa que os agropecuaristas goianos e brasileiros em geral investem em tecnologia, geram mais empregos e preservam outros tantos na cadeia do agronegócio, buscando gerar riquezas, e o governo, por sua vez, pouco ou nada contribui para o desenvolvimento econômico e social do Brasil.

Em Goiânia, a Sociedade Goiana de Pecuária e Agricultura (SGPA) tem se manifestado pela melhoria rápida da logística brasileira, por meio de seu presidente, Ricardo Yano. Em recente entrevista ao Diário da Manhã, Yano discorreu sobre os crescentes recordes da safra agrícola. Mas lamentou que o sistema de transportes não acompanha o empreendedorismo dos produtores rurais. A construção de um porto marítimo moderno em Cuba é lamentada pelo líder ruralista, quando lembra que “obras dessa natureza são carentes no Brasil”.

O presidente da Federação do Comércio do Estado de Goiás (Fecomércio), José Evaristo dos Santos, disse ao DM que compartilha da mesma indignação de todo o setor produtivo brasileiro. “É inaceitável que o governo brasileiro faça investimentos com recursos do BNDES em um porto em um país que sequer tem relações comerciais com o Brasil e sem transparência, enquanto o País segue com problemas sérios em sua infraestrutura portuária, causando tantos problemas para o escoamento da produção agropecuária, mineral e industrial para o mercado externo”, declarou.

Daniel Bolelli, advogado aduaneiro em São Paulo, diz que “há décadas, os sucessivos governos, nas suas diversas esferas, têm dado pouca importância à logística brasileira. Paramos no tempo. Estamos à deriva”. E acrescenta: “Infelizmente, a estrutura rodoviária, ferroviária (das poucas que resistiram ao tempo), aeroportuária e, sobretudo, a portuária estão sucateadas e não comportam há muito a demanda de que necessita.”

infraestrutura
O advogado observa que por diversos motivos existem entraves que fazem com que o País não avance em sua economia, esbarrando na limitada e precária infraestrutura. No setor portuário não é diferente, e o que vemos é o Brasil perdendo competitividade no mercado internacional, deixando de ser, por diversas vezes, uma opção viável e vantajosa frente aos demais complexos portuários mundo afora, que possuem sistemas e infraestruturas muito superiores às encontradas por aqui, como exemplo, o Panamá, a Alemanha, a China e muitos outros países.

Pedro Alves de Oliveira, presidente da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), sempre promove, em reuniões feitas na Capital, as riquezas goianas, formando pontes comerciais. A logística dos transportes é uma de suas preocupações, seguindo os passos da própria Confederação Nacional das Indústrias (CNI) que tem se batido ao longo dos anos pela implantação de um sistema rodoferroviário e hidroviário, na tentativa de reduzir o Custo Brasil.

Na visão da Fieg, não podemos esquecer que os portos não atuam de maneira solitária. Eles integram apenas um ponto de uma cadeia intermodal, composta por rodovias, aeroportos, hidrovias, ferrovias, dentre outras. Assim, como nos países desenvolvidos ao redor do mundo, a eficiência e custos operacionais (sobretudo os impostos), devem ser justos e condizentes com o trabalho que se é prestado ou colocado à disposição das empresas que deles necessitem.

Fonte: DM Economia
 
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