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sábado, 25 de janeiro de 2014

ONU cobra 'conscientização de riscos' em congresso de 1 ano da Kiss

Coordenador do Escritório das Nações Unidas redigiu texto sobre tragédia.
Leitura de carta foi antecedida por momento de choro e emoção.
Congresso começou neste sábado em Santa Maria (Foto: Estêvão Pires/G1)

Redigida pelo coordenador do Escritório das Nações Unidas para Redução de Risco e Desastres, David Stevens, uma carta aberta aos familiares das vítimas e sobreviventes incêndio da boate Kiss pede que esforços de reconstrução no país leve em conta "alternativas menos vulneráveis". O texto ainda lembra que 144 municípios brasileiros já aderiram à campanha global "Construindo Cidades Resilientes", nas quais as administrações locais se comprometeram a trabalhar para que tragédias não se repitam.

o a tristeza inescapável dos familiares e amigos das centenas de vítimas, e imagens que comoveram o mundo. A tragédia contribuiu também para uma reflexão nacional e tem inspirado ações de prevenção e resiliência, para que tal tragédia não se repita jamais, nem no Brasil nem em qualquer outro país do mundo", diz a carta da ONU.

"Esforços de reconstrução devem levar em conta estas experiências passadas para criar alternativas menos vulneráveis, mas preparadas, não só em termos de reconstrução dos espaços públicos, mas também no sentido de promover o conhecimento e a conscientização dos riscos em toda a sociedade", segue a carta.

Segundo as Nações Unidas, a campanha quer buscar transparência e tornar público todos os esforços na redução do risco de desastres para a sociedade monitorar avanços e "cobrar compromissos". O documento ainda ressalta que "ações simples de prevenção podem reduzir significativamente o risco e a gravidade de acidentes".

A carta foi divulgada durante o 1° Congresso Internacional Novos Caminhos - A Vida em Transformação, iniciado na manhã deste sábado (25), em Santa Maria. Feita pelo advogado Luis Fernando Smaniotto, um voluntário da Associação, a leitura foi antecedida por um momento de comoção no auditório do Centro Universitário Franciscano (Unifra). Durante o discurso da solenidade de abertura, o presidente da AVTSM, Adherbal Ferreira, chorou por pelo menos 20 minutos.

"Esse laço lindo que tínhamos foi cortado. Você olha as fotos, lembra das viagens que fazia, dos primeiros passos da primeira fala, do quanto você dormiu. Meu Deus, que saudade. Amor incondicional. Nós pais lutamos pelo nosso conforto familiar. Agora, nós precisamos de muita fé para andar e viver. É uma dor atravessada no peito", disse ele, que é pai de uma das vítimas.

"Nosso domingo, principalmente, não presta mais. É difícil suportar um domingo. Todos nós temos essa dor. É a dor na alma da saudade. Precisamos viver para achar uma maneira nova, por isso o congresso 'novos caminhos'. Superação não. Vamos modificar ou transformar a vida. Pois lutamos pela verdadeira Justiça pra que nenhuma família volte a sofrer o que passamos. Precisamos ter muita fé e nos colocarmos no lugar do outro. Abraça teu irmão", seguiu Adherbal.

A comoção de Adherbal se estendeu a outros parentes de vítimas presentes no auditório, que até então estavam com semblante tranquilo, e demostravam mais preocupação em cobrar justiça. Alguns deixaram o local aos prantos logo após o discurso, e tiveram que ser amparados por voluntários da organização. Enquanto autoridades ocupavam uma tribuna montada para o congresso, um telão mostrava fotos dos 242 jovens vítimas da tragédia que vai completar um ano nesta segunda-feira (27).


Entenda
O incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, na Região Central do Rio Grande do Sul, ocorreu na madrugada do dia 27 de janeiro de 2013. A tragédia matou 242 pessoas, sendo a maioria por asfixia, e deixou mais de 630 feridos.

O fogo teve início durante uma apresentação da banda Gurizada Fandangueira e se espalhou rapidamente pela casa noturna, localizada na Rua dos Andradas, 1.925.

O local tinha capacidade para 691 pessoas, mas a suspeita é que mais de 800 estivessem no interior do estabelecimento. Os principais fatores que contribuíram para a tragédia, segundo a polícia, são: o material empregado para isolamento acústico (espuma irregular), uso de sinalizador em ambiente fechado, saída única, indício de superlotação, falhas no extintor e exaustão de ar inadequada.

Ainda estão em andamento dois processos criminais contra oito réus, sendo quatro por homicídio doloso (quando há intenção de matar) e tentativa de homicídio, e os outros quatro por falso testemunho e fraude processual. Os trabalhos estão sendo conduzidos pelo juiz Ulysses Fonseca Louzada. Sete bombeiros também estão respondendo pelo incêndio na Justiça Militar. O número inicial era oito, mas um deles fez acordo e deixou de ser réu.

Entre as pessoas que respondem por homicídio doloso (com intenção), na modalidade de "dolo eventual", estão os sócios da boate Kiss, Elissandro Spohr (Kiko) e Mauro Hoffmann, além de dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, o vocalista Marcelo de Jesus dos Santos e o funcionário Luciano Bonilha Leão. Os quatro chegaram a ser presos nos dias seguintes ao incêndio, mas a Justiça concedeu liberdade provisória aos quatro em maio do ano passado. Entre os bombeiros investigados, está Moisés da Silva Fuchs, que exerceu a função de comandante do 4° Comando Regional de Bombeiros (CRB) de Santa Maria.

Atualmente, a Justiça está em fase de recolher depoimentos dos sobreviventes da tragédia. O próximo passo será ouvir testemunhas. Os réus serão os últimos a falar sobre o incêndio ao juiz. Quando essa fase for finalizada, Louzada deverá fazer a pronúncia, que é considerada uma etapa intermediária do processo.

Se o magistrado "pronunciar" o réu, ele vai a júri (a pronúncia é a ordem para ir a júri). Outra possibilidade é a chamada desclassificação, quando o juiz não manda o réu para júri, mas reconhece que houve algum tipo de crime. Nesse caso, a causa será julgada sem júri. Também existe a chance de absolvição sumária dos réus. Em todas as hipóteses, cabe recurso.

No âmbito das investigações, três delas estão sendo conduzidas pela Polícia Civil. Além dos documentos sobre as licenças concedidas à boate Kiss, um inquérito apura as atividades da empresa Hidramix, responsável pela instalação de barras antipânico na boate, e outro analisa uma suposta fraude no documento de estudo de impacto na vizinhança do prédio onde ficava a casa noturna. O Ministério Público, por sua vez, investiga as responsabilidades de servidores municipais na tragédia.

Fonte: G1
 
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